segunda-feira, 17 de maio de 2010

Pensar angustia, mas liberta.






O ORGULHO HUMANO

O ser humano é orgulhoso por natureza. Seu orgulho o levou a considerar-se superior a todas as outras criaturas terráqueas. Acha que é a coroa da criação, feito à imagem e semelhança de Deus, e que tem uma alma imortal. “A vida aqui é só o prelúdio da eternidade”, dizem alguns. “Não somos corpos vivendo uma experiência espiritual; somos espíritos, vivendo uma experiência corporal”, afirmam outros. E assim cada um pinta a existência humana com as cores que lhe parecem mais adequadas.

Talvez a forma mais comum de revelação do orgulho humano seja mesmo a fuga da realidade. O instinto de sobrevivência faz com que as pessoas vistam a vida com um otimismo que não tem conexão com o real. Como no filme “A vida é bela” em que o ator principal está com o infante filho no campo de concentração nazista e tenta enganar o menino fazendo-o acreditar que estão apenas jogando um jogo que resultará em um prêmio no final. A ideologia passada nesse filme é a mesma passada pelos pregadores excessivamente otimistas que anunciam que no final tudo dará certo.

O homem não aceita que ele é igual a qualquer outra criatura, pelo menos no que diz respeito ao processo natural das coisas: nascemos, sofremos e morremos. Não conseguimos aceitar que um dia nossas lutas resultarão em nada diante da inexorabilidade da correnteza que a tudo arrasta para a extinção. Não conseguimos aceitar que um dia seremos esquecidos de tudo e de todos.

A saída é negar, fugir, iludir-se, dizer que a vida é bela, que as lutas vêm para nos aperfeiçoar, que “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. O pior é que, como dizia uma desprezível criatura, uma mentira repetida várias vezes acaba se transformando numa verdade.

Sartre defendeu na obra A Náusea que a existência humana é absurda. É absurda talvez porque o resultado de nossa luta é aquela coisa absurda, o fim inevitável de todos os homens. Hoje mesmo, enquanto cortava o cabelo no sindicato dos vigilantes, comentava com o cabeleireiro que, daqui a pouco tempo, será o meu filho que estará ali assentado – se ele quiser ser sócio do sindicato, é lógico - e, “sem dúvida, não será o senhor” – eu disse ao cabeleireiro – “que estará usando a tesoura”. Ele acenou com a cabeça e me olhou com tristeza, pois já estava no lado poente da vida.

Mas o danado é que a gente se apaixona cegamente por essas quimeras que a vida oferece, como um homem que se apaixona cegamente por uma mulher a ponto de não ver defeitos e negar todas as suas peripécias em nome da paixão frenética. Quando pergunta qual a razão dele estar com ela e amá-la tanto, ele responde: Não sei. Talvez a única razão seja ela.

Nelson Rodrigues tinha um personagem que amava excessivamente sua mulher. Um dia, ao ouvir o rumor de que estava sendo traído, disse-lhe: “Se um dia eu lhe flagrar na cama com outro homem, em pleno ato, por favor negue. Diga que não é verdade e eu acredito em você”. Assim somos nós, somos traídos todos os dias por essa mulher chamada vida, mas basta ela abrir um sorriso e nos convidar de volta a algum deleite, acabamos por acreditar nela. Será que em algum dia o ser humano terá humildade o bastante para aceitar nossa situação deplorável de ser humano? Ou seremos eternos iludidos, já que, como dizia uma professora minha, iludir-se é uma questão de sobrevivência.

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