sexta-feira, 21 de maio de 2010

Necessidade de Máscaras



Eu não sei dizer desde quando vem a tradição do uso de máscaras entre os povos nem as circunstâncias  que originou tal prática. O que sei dizer é que as máscaras têm exercido, ultimamente, certa magia sobre meu espírito, sensações estranhas, um misto de repulsa e familiaridade. Repulsa no sentido de que elas me metem medo, um medo exacerbado pela frequência em meus sonhos. Familiaridade porque, ao mesmo tempo que metem medo, parecem ser parte integrante de mim, um espectro enraizado nas entranhas da alma. Portanto, quando em meus sonhos repudio as máscaras, é como se estivesse esboçando um repúdio a mim mesmo, e talvez essa obsessão seja uma impressão marcada pela percepção recente de que as máscaras nunca foram tão usadas como em nossos dias, tornaram-se imprescindíveis, meio de sobrevivência em nossa sociedade.

Várias civilizações, desde tempos remotos, fizeram uso das máscaras, cada uma com o significado que melhor lhe convinha. Na Grécia, eram usadas nos festivais e teatros, sendo ali o início de seu uso para fins artísticos. Em países africanos e asiáticos, artesãos as produziam para o uso em cerimônias religiosas. Também no antigo Egito eram frequentemente usadas, tanto nos cultos como nas múmias que eram enterradas com máscaras adornadas de pedras preciosas. Esquimós no Alasca, nativos americanos do sudoeste dos EUA e tribos primitivas do Brasil também usavam cobertura facial pelos mais diversos motivos.

Desconfio que a prática de cobrir o rosto ultrapasse as barreiras do tempo e lugares e seja tão antiga quanto a origem da espécie humana. Desconfio que tenha mais a ver com uma necessidade intrínseca da espécie do que com produção artística e cultural. Estou dizendo que deve ter conotação mais profunda do que o significado atribuído pelo uso convencional. Pensando em termos psicanalíticos, acredito tratar-se de pulsões cuja origem esconde-se nas entranhas do inconsciente e, disfarçadamente, se manifesta na cultura. Estou partindo do pressuposto de que, desde que o mundo é mundo, todas as pessoas têm a necessidade de cobrir a cara o tempo todo e que, portanto, a tradição de usar máscaras desde tempos remotos consiste apenas numa representação concreta dessa necessidade intrínseca da alma humana. Destarte, as máscaras feitas de diversos materiais eram apenas sombra de uma realidade feia e vergonhosa, escondida a sete chaves e escondem um rosto mais significativo, de conotação mais ampla, representante do caráter.

Existem a máscara simples e a coletiva. A primeira serve para desfaçar o indivíduo; a segunda, para disfarçar o grupo. Entre os judeus, havia um grupo de religiosos, os fariseus, que vivia constantemente mascarado. Eles escondiam seu verdadeiro rosto atrás de um disfarce de bondade e devoção a Deus, como forma de agradar seus compatriotas devotos. Aquilo que o povo queria ver e ouvir era exatamente o que eles apresentavam, uma questão mercadológica de oferta e demanda. Os fariseus eram os homens mais honrados e respeitados de seu tempo, até que Jesus, numa censura ferrenha, arrancou-lhes a máscara, revelando ao povo sua verdadeira face. A reprimenda de Jesus nos fariseus foi tão forte que nos legou o termo farisaísmo como sinônimo de hipocrisia, a tradição humana de esconder a verdadeira face.

Revelar a verdadeira face é o que as pessoas menos querem, porque é comprometedor em um mundo que exige multiplicidade identitária. Talvez por isso Nelson Rodrigues já dizia que só o rosto é obsceno, que do pescoço para baixo, podíamos andar nus.

Mas as máscaras também têm significado mercadológico: são uma questão de demanda e oferta. Quem usa quer vender a cara que os seus expectadores querem comprar, e assim todos parecem sair ganhando. O político quer passar a imagem de salvador que o eleitor quer ver. O pastor apresenta-se como o super-homem que os fiéis querem imitar. O candidato a um emprego quer passar a cara de proativo que o entrevistador procura. E assim todos são levados de roldão nessa procura pelo modelo ideal, imposto socialmente, em um mundo desajustado o suficiente para não conseguir satisfazer as sobre-humanas expectativas. É aí que entra o papel das máscaras, uma tentativa de satisfazer necessidades insaciáveis.

As máscaras que se proliferam nas sociedades hodiernas fazem-se de palavras e discursos. Não faz muito tempo, um colega comentou comigo que, na maioria das vezes, o que dizemos é apenas uma forma de esconder o que somos. Perfeito. Nós estamos vivendo a época de discurso às avessas, ou seja, para saber o que muitos homens são e o que defendem, precisa-se tão somente interpretar de forma oposta, como se usássemos um dicionário de antônimos, as suas palavras, porque a verdade é exatamente o oposto do que eles estão dizendo.

O duro é perceber que numa sociedade hipócrita como a nossa, usar máscara começa a ser questão de sobrevivência. Uns fingem que falam a verdade e outros fingem que acreditam. No final, todo mundo está fingindo o tempo todo. Parece imperar entre nós a necessidade de se agradar a gregos e troianos. Pegando a política como exemplo, quando se está fora do governo, põe-se uma máscara de oposição; quando a oposição consegue atingir o objetivo (chegar ao poder), põe a máscara que a situação derrotada jogou fora para, por sua vez, pegar novamente a antiga máscara que a oposição, agora no poder, dispensou. Como disse alguém: “Não há nada mais parecido com o governo do que a oposição no governo”. O resultado disso é a fragmentação do caráter e uma crise profunda de identidade. Lembra-me muito aquele cidadão que estava assentado no banco de uma praça,altas horas da noite, quando foi abordado por um policial que lhe perguntou: “Quem é você?”Ele respondeu: “Boa pergunta, eu gostaria de saber”. Hoje, a resposta mais adequada talvez fosse: “depende”.

Na última semana, procurei uma psicóloga para falar de minha profunda crise de identidade. Era a primeira vez que eu buscava o auxílio da psicologia legítima. Os colegas de profissão insistem em me dizer que toda pessoa que pretenda ser psicólogo, cedo ou tarde, precisa fazer análise. Juntei a orientação dos colegas à minha crise de identidade e resolvi matar dois coelhos com uma cajadada só. Ao chegar ao consultório para a primeira sessão, falei para a terapeuta de minhas raízes cristãs, dos princípios arraigados e engessados que estavam sendo confrontados pelos textos de psicologia, filosofia e sociologia. Disse-lhe que eu estava em águas turvas, sem poder apoiar os pés. Como conciliar princípios tão discrepantes em mim, principalmente nos atendimentos psicoterápicos? Como não deixar o teólogo interferir no serviço do psicólogo na clínica? Ou, ao contrário, como não permitir ao psicólogo interferir no trabalho do teólogo na igreja? Foi aí que ela me falou das máscaras e da grande necessidade de usá-las. Orientou-me que andasse com uma sacola cheia delas a fim de incorporar o homem multifacetado que nossa sociedade demanda. A partir daí, toda a entrevista girou em torno deste assunto. Consideramos que vivemos na época de personalidades multifacetadas, onde só há espaço para quem se adapta fácil a cada novo ambiente, para quem dança conforme a música e procura máscaras multicolores a fim de agradar a gregos e troianas. O resultado disso é que o homem hodierno está fragmentado em suas convicções, órfão de princípios e valores sagrados.

O pior é perceber que este mal está atingindo também a igreja, que se pretende representante de Deus na terra e, como tal, deveria pautar-se com total transparência e uniformidade. Através de mensagens eivadas de presunção de santidade singular, de superioridade religiosa, com a qual garantem o céu aos que se adaptam e o inferno aos irredutíveis, muitos líderes e pregadores religiosos mascaram aquilo que há de mais incômodo nos recônditos da alma humana: um amontoado de segredos miseráveis. É difícil aceitar que estamos no mesmo barco, que temos as mesmas fraquezas, os mesmos anseios, que, se o barco afundar, vai todo mundo para o fundo do mar.

Há pouco tempo, numa reunião entre irmãos, comentávamos que os líderes evangélicos de antigamente cometeram muitas atrocidades com os seus liderados em nome de um ideal de santidade inatingível, mas que são passiveis de absolvição, porque acreditavam realmente naquilo que ensinavam. Os de hoje, com raras exceções, é claro, nem eles mesmos acreditam no que estão ensinando e, se continuam ensinado errado, é por uma questão de conveniência. E o pior: muitos féis já começaram a perceber a desonestidade intelectual de seus líderes, mas, também por uma questão de conveniência e conforto momentâneo, fingem que acreditam em tudo.

Por fim, parece estar impingido na cabeça das pessoas que viver de forma sincera (sem cera) é arriscado demais para valer a pena e, por isso, poucos são os que se dão à ousadia de tentar, assumindo as reais ameaças à sua sobrevivência em quaisquer instituições que frequentem. Este é o mundo que temos, e cada um faz uso da arma que tem, ou melhor, da máscara que tem, afinal de contas, se cobrir a face virou mesmo questão de sobrevivência...    parece que foi no filme Uma Linda Mulher que uma prostituta, interpretada pela arrebatadora Julia Robert, diz: a gente precisa sobreviver.



Postar um comentário