quarta-feira, 19 de maio de 2010

O sol vai nascer de novo

Que ele era um jovem de fé, ninguém duvida. Aliás, fazia questão de ostentar seu espírito religioso pelas longas e altissonantes orações; orações, diga-se de passagem, quase nunca respondidas. Mas ele dizia que nunca se deve perder a esperança, pois, como dizia o poeta, “a esperança dá ao homem os ombros que suportam o mundo”. Se alguém tentava dissuadi-lo, defendia-se dizendo que “é batendo que se abre a porta” e “é pedindo que se recebe”. Tantas vezes, ele se frustrou com os revezes da vida, mas ficou firme como o idealista incorrigível de Nietzsche: se alguém o expulsava do seu céu, ele fazia um ideal do seu inferno.

Mas um dia se sentiu definitivamente cansado, cansado de tudo e de todos. De tudo, entenda-se o trabalho, a faculdade, a igreja, a família e, mais ainda, das orações não respondidas. De todos, diga-se dos amigos, da esposa, de Deus e, mais que tudo, de si mesmo. Achou-se um ser complexo demais e que, portanto, nunca conseguiria lidar consigo mesmo. Viu-se assaltado por um amontoado de desejos que fluíam espontaneamente do recôndito de sua alma, desejos que se chocavam com um código de ética arraigado demais para ser superado. Gritou, esperneou, quis sumir...

O seu maior problema é que o sol nascia todas as manhãs, e ele não aguentava mais ver o grande astro aparecer no horizonte, e ter que, sob a sua luz, fazer as mesmas coisas enfadonhas que a tradição determinou como imprescindível. A tradição tem um comportamento para apresentar à luz do sol. Mas Havia um mundo reprimido de coisas novas, de desejos recalcados, de paixões enfurecidas, "tudo inacessível à luz da grande estrela", ele imaginava.

Uma noite, antes de ir para a cama, dirigiu-se a Deus com a seguinte prece: “Bondoso Senhor, já te fiz tantos pedidos que não tiveram respostas; conceda-me, porém, este que vou fazer agora e eu esquecerei todos os outros. Que amanhã o sol não esteja lá para mim, só para mim,porque o sol que existe é um sol para mim,e eu não aguento mais viver as mesmas coisas todos os dias”.

Mal havia pronunciado a última palavra da prece, o sono o assaltou. Sonhou com alguém que estava cantando "mas é claro que o sol vai voltar amanhã"... (Renato Russo), para quem, curiosa e ironicamente, o sol já não volta. Mas ele dormiu bem toda aquela noite.

Sete da manhã. Ao levantar-se, foi à janela e verificou que mais uma vez a sua oração não havia sido respondida. A luz do grade astro reverberou em seu rosto. Ele teria mais um longo e indigesto dia pela frente. Não se sabe se naquele dia indesejável,tudo em sua vida aconteceria como nos outros dias. Mas que o sol estava lá, isso estava. E voltaria em muitas outras manhãs, o sol que ele mesmo colocou no seu céu. O poeta deve ter-se mexido no túmulo.
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