quarta-feira, 19 de maio de 2010

O Fator Melquesedeque

UM LIVRO QUE NÃO PODE FALTAR NO REPERTÓRIO DO CRISTÃO

O fator Melqisedeque: o testemunho de Deus nas culturas através do mundo (Mundo Cristão, 1995, tradução de Nedy Siqueira), de autoria de Don Richardsoni e publicado originalmente com o título Inglês Eternit in their hearts (1981) é uma obra de caráter cristão-missiológico que se tem projetado como sempre atual, amiúde lida e relida por muitos leitores do seguimento cristão.

Don Richardson objetiva mostrar que a revelação de Deus à humanidade acontece em dois níveis, que ele chama de Fator Abraão e Fator Melquisedeque. O primeiro fator é uma referência à revelação especial de Deus na Bíblia, tendo como veículo principal a nação de Israel, cujo progenitor é Abraão. O segundo fator diz respeito à revelação geral-original do Criador a todos os povos, de todas as culturas, muitos dos quais, em sua forma primitiva de viver, ainda deixam transparecer alguns resquícios alojados em suas consciência acerca do projeto de Deus para o mundo, e cujo referencial maior é o cananeu Melquisedeque, o qual, apesar de fazer parte de um povo alheio à aliança de Deus com Abraão, demonstrou um conhecimento considerável a respeito da mesma quando se encontrou com este patriarca.

O livro se estrutura em duas partes: 1) O mundo preparado para o evangelho – o fator Melquisedeque e 2) O evangelho preparado para o mundo – o fator Abraão. Nos quatro primeiros capítulos (parte 1), Richardson desenvolve a ideia que ele denominou de Fator Melquisedeque, primeiramente trazendo ao conhecimento do leitor fatos curiosos ocorridos entre povos primitivos e que mostram um conhecimento, ainda que remoto, do verdadeiro Deus entre eles. Assim sendo, no primeiro capítulo, denominado Povos do Deus remoto, são alguns bem primitivos, como os cananeus e os gedeo da Etiópia, e outros relativamente civilizados, como os atenienses e o incas. A cada um desses povos, o autor refere um acontecimento que aponta para a revelação original de Deus, a qual foi perdendo a tonalidade na consciência deles com o passar do tempo, mas que não se perdeu de todo. Por exemplo, Richardson refere-se aos atenienses e ao seu altar ao Deus desconhecido, atribuindo a origem deste conceito a um certo Epimênides, cuja orientação sobre um deus desconhecido teria salvado a cidade de Atenas de uma grande peste. Tendo os atenienses já oferecido ofertas a todos os seus deuses e não tendo cessado a mortandade, Epimênides orientou que precisavam oferecer sacrifícios a um deus cujo nome era desconhecido, orientação que, seguida a risca, pôs fim à peste. As outras narrativas atinentes aos outros povos também se mostram bem convincentes.

No capitulo dois – Povos do livro perdido – o autor fala de uma crença muito comum entre alguns povos da região da Birmânia e adjacências. Segundo aqueles povos, os seus antepassados serviam a um único Deus – cada um cita um nome de acordo com o idioma falado, não obstante os significados serem bem parecidos – o qual lhes deu um livro que continha as leis da divindade, mas de alguma maneira, o livro se perdeu – cada um cita um motivo – trazendo maldição sobre eles. Segundo essas crenças, há uma promessa antiga, propalada pelos seus profetas – há também profetas entre eles – segundo a qual um dia aparecerá um homem branco trazendo de volta o livro que os libertará da servidão e lhes mostrará o caminho da felicidade. Vale salientar que, embora alguns destes povos ofereçam sacrifícios a outras divindades a fim de apaziguar-lhes a ira, reconhecem que há somente um Deus, criador de todas as coisas. A visão que estes povos têm da única Divindade é bem parecida com a cosmovisão judaico-cristã. Temos como exemplos os Karen da Birmânia , cujos hinos anunciam e exaltam um único Deus verdadeiro que eles chamam de Y’wa, e os kachin, do norte da Birmânia, cujo deus Karai Kassang é o Glorioso que tudo cria e tudo sabe.

Richardson  mostra a evidência de um monoteísmo nativo nas crenças destes povos, bem como alguns paralelos entre essas crenças e algumas doutrinas das Escrituras, por exemplo, o conceito de um Deus único, Criador do Universo, a noção de desobediência original contra a Divindade, a promessa de um Salvador enviado para trazer a verdade e iluminar aqueles que estão em trevas espirituais.

Na seqüência, o livro apresenta alguns povos de costumes muito exóticos, cujas tradições serviam de empecilho à propagação do evangelho, e as estratégias usadas por missionários para remover os empecilhos, estratégias inspiradas na percepção de uma correlação entre aqueles costumes exóticos e alguns pontos doutrinários das Escrituras. Os Sawi da Nova Guiné são um exemplo. Além de canibais, este povo pratica a “caça cabeça”, um costume que consiste em selecionar pessoas da própria comunidade (normalmente uma família) e, num ato de traição, cortar-lhes as cabeças para estacá-las em suas plantações a fim de atrair fecundidade como favores dos deuses. A tradição do corta cabeça enaltece os traidores, que são aqueles encarregados de iludir suas vítimas com uma falsa amizade, literalmente engordando-as para, por fim, matarem-nas. Sendo os traidores muito enaltecidos nesta cultura, quando a mensagem do evangelho anunciou um Jesus traído por um Judas, Judas ganhou um lugar de honra e Jesus ganhou um lugar de desprezo. Segundo esta mesma tradição, somente um ato poderia proteger uma família ou pessoa de qualquer traição deste tipo: quando um pai sawi oferecia seu filho para outro grupo como uma “criança da paz”, tanto as diferenças antigas entre eles eram canceladas, como eram prevenidas futuras ocasiões de perfídias. Neste caso, como uma forma de remover o empecilho à propagação do evangelho, o autor, ele mesmo no campo missionário, apresenta Jesus como a última criança da paz, fazendo um paralelo entre este costume sawi e o ato de Deus ter oferecido seu Filho como meio de desfazer a inimizade entre Ele e a humanidade perdida. Com este exemplo, Richardson mostra que mesmo povos com costumes tão selvagens, parecem possuir resquícios de uma revelação geral de Deus que se externam em similitudes entre alguns de seus atos e a revelação especial de Deus na Bíblia.

No capítulo que encera a primeira parte do livro em apreço, o autor trata de teorias estranhas (sic), ou mais precisamente, eruditos com teorias estranhas, que se levantaram na esteira da Teoria da Evolução de Charles Darwin, para tentar explicar cientificamente origem da religião e a evolução que se deu do politeísmo para o monoteísmo entre aqueles povos. Ganha destaque a teoria do inglês Eduard B. Tylor. que defende que a ideia de alma humana, desenvolvida pelos primitivos, poderia ter sido o embrião natural do pensamento do qual se desenvolveram todos os demais conceitos religiosos, e que, portanto, as religiões devem ter nascido da compreensão de gente primitiva que atribuía não só aos humanos, mas também a outras entidades, a existência de uma alma. Para Tylor, a evolução do politeísmo para o monoteísmo inspirou-se em alguns fenômenos de certas sociedades humanas, sendo o principal deles a estratificação das classes, que foi pouco-a-pouco elevando a aristocracia ao governo das massas, até que um único aristocrata assumiu o governo soberano, o que teria inspirado mentes religiosas fecundas a, paralelamente, elevar um membro do panteão de deuses locais acima das outras divindades, culminando no monoteísmo. Mas Richardison mostra, com sólida argumentação, a insustentabilidade da  teoria de Tylor, há muito já refutada pela ciência,  e quais as suas conseqüências deletérias no decorrer da história.

Na segunda parte do livro em apreço, Richardson aborda o que ele chama de revelação especial, feita a Abraão a partir do capítulo 12 de Gênesis, conhecida pelos estudiosos da Bíblia como “aliança abraâmica . Após recapitular alguns aspectos da revelação geral, como por exemplo: a existência de Deus, a criação, a rebelião e queda do homem, a necessidade de um sacrifício para aplacar a Divindade, o grande Dilúvio, verdades conhecidas dos mais diversos povos primitivos , o autor propõe que a aliança abraâmica se levanta como uma ilha em meio ao mar da revelação geral.

Richardson classifica as promessas feitas a Abrão em duas categorias. 1) As promessas da linha de cima: De ti farei uma grande nação e te abençoarei, e engrandecerei o teu nome. Sê tu uma bênção; abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem;  e 2) As promessas da linha de baixo: Em ti serão benditas todas as famílias da terra. A compreensão dessa classificação é que o plano Deus era abençoar Abraão e os seus descentes (promessas da linha de cima) para, por meio dele, abençoar todos os povos da terra (promessas da linha de baixo).

Como exemplo prático do propósito de Deus de abençoar os gentios por meio da nação eleita, são apresentados casos no antigo Testamento em que os filhos de Abraão foram uma bênção para os povos não-judeus. Dentre os muitos exemplos, vemos José sendo um canal de bênçãos para os egípcios, os espias de Josué abençoando Raabe e sua família em Jericó, Noemi alcançando duas mulheres moabitas. Na seqüência são apresentadas abundantes referências no Novo Testamento que mostram Deus ainda apegado ao seu antigo compromisso de abençoar os gentios por meio de Abraão, principalmente nas cartas paulinas e na epístola aos hebreus.

No capítulo seis, com o título Um Messias Para Todos, Richardson mostra o cumprimento da promessa feita abraâmica em Jesus. Ele começa fazendo um paralelo entre Isaque e Jesus, bem como entre o monte Moriá, local onde teria acontecido o sacrifício de Isaque, e o Calvário, lugar onde Jesus foi sacrificado. O objetivo da comparação é salientar que toda a vida de Jesus, sua morte e ressurreição estavam intimamente ligadas à promessa milenar de Deus, no sentido de repartir as bênçãos de Abraão entre todos os povos da terra. Esta afirmativa se encontra apoiada em abundantes referências que mostram Jesus estendendo as bênçãos de Abraão a vários gentios, como por exemplo, o centurião de Cafarnaum (Mt 8.5-13) e a mulher cananeia (Mt 15.21-28). Portanto, todas as ações de Jesus em direção a pessoas não israelitas indicavam o seu compromisso com a promessa de Deus a Abraão, de alcançar os gentios

E no último capítulo, o autor relata o plano de Deus de alcançar todos os povos evidenciado no livro de Atos, expresso na Grande Comissão delegada por Jesus aos seus discípulos, quando ordenou a estes que não se ausentassem de Jerusalém até que recebessem poder para evangelizar o mundo ((Mt 28.18-20; At 1.8). O plano de Deus de abençoar os gentios estava evidente no fato de a efusão do Espírito Santo acontecer no dia de Pentecostes, quando judeus do mundo inteiro, falantes de vários idiomas gentios, estavam reunidos em Jerusalém. A intenção de Deus de alcançar todos os gentios se evidencia mais uma vez no fato de os discípulos, após serem batizados no Espírito Santos, falarem milagrosamente vários idiomas, fazendo-se entender de todos os que se achavam em Jerusalém para a festa de Pentecostes. 

Os discípulos de Jesus, todavia, parece não terem entendido o significado da Grande Comissão, ao se mostrarem relutantes à ordem de levar o evangelho aos gentios, até que Deus tomou providências drásticas para que sua promessa a Abraão fosse cumprida. Três fatos importantes evidenciaram a ação de Deus: 1) a grande perseguição que se abateu sobre a igreja de Jerusalém (At 8.1); 2) a conversão de Saulo (At 9.1ss); 3) a destruição de Jerusalém por Tito no ano 70 A.D. Acrescenta-se ainda o fato de Deus ter ordenado a Pedro que fosse a casa de Cornélio, um gentio, a fim de que este recebesse as bênçãos do evangelho (At 10.9-23). Richardson mostra com detalhes como esses acontecimentos foram decisivos para a expansão do Reino de Deus entre os gentios. O livro se encerra com o recomendação do autor a que os leitores atentem para a linha de baixo das promessas feitas por Deus a Abraão e façam frutificar a promessa de 4.000 anos feita ao pai da fé.

Opinião pessoal
Achei O Fator Melquisedeque encantador pelo estilo cativante e pelas eloquentes ideias desenvolvidas por Don Richardson sobre as revelações de Deus para a humanidade. As histórias narradas prendem a atenção e enriquecedoras em relação às diversas culturas dos povos, culturas impregnadas do elemento religioso. É um verdadeiro tratado missiológico e, portanto, de leitura indispensável para quem aspira à obra missionária ou mesmo quem já está diretamente engajado nela. A leitura de O Fator Melquisedeque possibilita ao leitor uma visão geral e precisa do plano de Deus para a salvação de todos os homens e como ele trabalhou para executar o seu plano no decorrer da história através de pessoas que ele escolheu. Mostra também um resquício do conhecimento de Deus na mente dos pagãos, um rascunho do seu plano de salvação, o qual Ele revelou também aos gentios, materializado nos costumes e práticas religiosos destes. Já li outros livros que tratam do assunto das revelações de Deus aos povos, bem como dos costumes e culturas de povos antigos, tanto de caráter secular, como de caráter cristão, mas desconheço um autor que tenha abordado o assunto com tanta propriedade e profundidade. 

Sobre o autor
Reconhecido por seu trabalho antropológico e lingüístico, Don Richardson foi missionário em Irian Jaya, parte indonésia e ocidental da Ilha de Nova Guiné, em uma das regiões mais desconhecidas e misteriosas do planeta, habitada por tribos papuas que ainda vivem da maneira mais primitiva. É famoso conferencista e autor de vários best-sellers na área de missões, entre eles Fator Melquisedeque, Senhores da Terra e o Totem da Paz.
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