sexta-feira, 21 de maio de 2010

Orgulho Humano


 O ser humano é orgulhoso por natureza. Seu orgulho o levou a considerar-se superior a todas as outras criaturas terráqueas. Acha que é a coroa da criação, feito à imagem e semelhança de Deus e que tem uma alma imortal. “A vida humana aqui é só o prelúdio da eternidade”, dizem alguns. “Não somos corpos vivendo uma experiência espiritual; somos espíritos, vivendo uma experiência corporal”, afirmam outros. E assim cada um pinta a existência humana com as cores que lhe parecem mais adequadas.

Talvez a maneira mais expressiva de revelação do orgulho humano seja a fuga da realidade. O instinto de sobrevivência leva as pessoas a vestirem a vida com um otimismo que não tem conexão com o real. Como no filme “A vida é Bela” em que o ator principal está com o infante filho no campo de concentração nazista e tenta enganar o menino fazendo-o acreditar que estão apenas jogando um jogo que resultará em um prêmio ao vencedor. A ideologia passada nesse filme é a mesma passada pelos pregadores excessivamente otimistas que anunciam que no final tudo dará certo.

O homem não aceita que ele é igual a qualquer outra criatura, pelo menos no que diz respeito ao processo natural das coisas: nascemos, sofremos e morremos. Na realidade, o que nos diferencia de outras espécies é que somente nós temos a capacidade de nos iludirmos; e as nossas ilusões não nos deixam reconhecer que um dia nossas lutas resultarão em nada diante da inexorabilidade da correnteza que a tudo arrasta para a extinção, e que seremos, por fim, esquecidos de tudo e de todos.

A saída é negar, fugir, iludir-se, dizer que a vida é bela, que as lutas vêm para nos aperfeiçoar, que “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. O pior é que, como dizia uma desprezível criatura, uma mentira repetida várias vezes acaba se transformando numa verdade.

Sartre defendeu na obra A Náusea que a existência humana é absurda. É absurda porque o resultado de nossa luta é aquela coisa absurda, o fim inevitável de todos os homens. Hoje mesmo, enquanto cortava o cabelo no sindicato dos vigilantes, comentava com o cabeleireiro que, daqui a pouco tempo, será o meu filho que estará ali assentado – se ele quiser ser sócio do sindicato, é claro - e, “sem dúvida, não será o senhor” – eu disse ao cabeleireiro – “que estará usando a tesoura”. Ele acenou com a cabeça e me olhou com tristeza, pois já está no lado poente da vida.

Mas o danado é que a gente se apaixona cegamente por essas quimeras que a vida oferece, como um homem que se enamora cegamente de uma mulher a ponto de não ver defeitos e negar todas as suas peripécias em nome da paixão frenética. Quando indagado sobre a razão de estar com ela e amá-la tanto, ele responde: Não sei. Talvez a única razão seja ela.

Nelson Rodrigues escreveu sobre um homem que amava loucamente sua esposa. Um dia, ao ouvir o rumor de que estava sendo traído, disse-lhe: “Se um dia eu lhe flagrar na cama com outro homem, em pleno ato, por favor negue, diga que não é verdade e eu acredito em você”. Assim somos nós: somos traídos continuadamente por essa diva chamada vida, mas basta ela abrir um sorriso, sinalizar que não é nada do que estamos pensamos e nos convidar de volta a algum deleite, acabamos por acreditar novamente nela. 

Será que em algum dia o ser humano terá evoluído o bastante para aceitar sua situação deplorável de ser humano? Ou seremos eternos iludidos, já que, como dizia uma professora, iludir-se é uma questão de sobrevivência?
Postar um comentário